Do culto à historie ao historicídio
uma crítica à colonialidade com Nietzsche, Castoriadis e Kropotkin
DOI:
https://doi.org/10.18226/21784612.v31.e026013Palavras-chave:
Nietzsche, educação, crítica ao Estado, apoio mútuo, historicismoResumo
Neste artigo, revisitamos a II Consideração Extemporânea (1874) de Friedrich Nietzsche para discutir a relação entre história, educação e vida. Nosso objetivo é atualizar a crítica nietzschiana ao saber histórico acumulativo (Historie) quando dissociado da vida e da criação (poiesis), examinando como esse padrão se prolonga nas instituições de ensino contemporâneas e pode funcionar como pedagogia de submissão. A metodologia é teórico-conceitual: partimos de uma leitura imanente da crítica de Nietzsche ao historicismo e à formação do erudito; em seguida, articulamos contribuições de Cornelius Castoriadis para compreender a escola como aparelho de reprodução da heteronomia e do imaginário burocrático; e de Piotr Kropotkin para contrapor a competição acadêmica ao princípio do apoio mútuo. Por fim, mobilizamos o conceito de “historicídio” para analisar o apagamento sistemático de lutas afro-pindorâmicas na história oficial e em currículos institucionalizados. Nossos resultados indicam que a escolarização orientada por produtividade, especialização e mérito tende a fabricar o “erudito” como trabalhador impessoal do saber, treinado a obedecer a normas e a idolatrar instituições, reforçando uma forma de “estadolatria” e de servidão voluntária. No plano curricular, a primazia da Historie e da suposta neutralidade axiológica converte a história em inventário de acontecimentos, enfraquecendo sua potência formativa para o presente e sua capacidade de nutrir a autonomia. Em contexto colonial, sustentamos que essa operação se expressa como historicídio, isto é, como escolha sistemática pela não contemplação das memórias e resistências dos povos subordinados. Concluímos que uma educação “a serviço da vida” requer recolocar a história no registro da criação e da ação, deslocando o ensino de uma função disciplinar para uma função instituidora. Como horizonte normativo e prático, propomos uma pedagogia de autonomia inspirada na resistência dos quilombos, concebidos como espaços de proteção de saberes ancestrais, solidariedade e reinvenção comunitária da vida.
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