Entre o declínio e a permanência: transações escravistas e ritmos da abolição em Mamanguape, PB (1868–1888)
Palavras-chave:
Regime escravista, documentação cartorial, Mamanguape, ParaíbaResumo
Este artigo analisa como a escravidão seguiu presente, em termos econômicos e jurídicos, no litoral norte paraibano, mesmo quando a abolição já se tornara um horizonte visível. O objetivo é compreender a persistência e a intensidade das transações escravistas em Mamanguape entre 1868 e 1888, tomando o cartório como lugar de observação privilegiado das rotinas de propriedade, crédito, reputação e garantia. Para tanto, o estudo utiliza pesquisa documental em livros do 1º Tabelionato de Notas de Mamanguape, com mapeamento material dos volumes, construção de protocolo padronizado de extração, como data, tipologia do ato, partes, qualificação, valores e cláusulas e leitura interpretativa que preserva incertezas quando a identificação dos sujeitos não é segura. A partir desse percurso, os achados mostram a coexistência, até muito perto de 1888, entre registros de circulação patrimonial de pessoas através da venda, permuta e penhor, bem como instrumentos de liberdade, sugerindo uma transição marcada por rearranjos calculados. Entre 1868 e 1888, foram identificados 457 atos envolvendo escravizados e no recorte das alforrias, 144 liberdades mostram predominância de concessões gratuitas (57%) e forte presença de alforrias pagas (43%), sinalizando estratégias senhoriais e agência de pessoas escravizadas. As mulheres concentram 67,36% das alforrias. A variável cor destaca como classificações documentais atravessavam a própria escrita da liberdade.